AQUI NÃO É MEU LAR!

Bunyan
Entre os cristãos da geração midiática, poucos, talvez ninguém, jamais tenha lido ou ouvido a inspiradora narrativa composta pelo escritor inglês John Bunyan (1628 – 1688), entitulada “O Peregrino”.

Embora tenha escrito mais de 60 livros, tais como “The Life and Death of Mr. Badman” (“A Vida e Morte do Senhor Badman”, 1680), uma biografia imaginária, “The Holy War” (“A Guerra Santa”, 1682), uma alegoria e “Grace Abounding to the chief of sinners” (“Abundante Graça para o chefe dos pecadores”, 1666) foi a saga de “O Peregrino”que o notabilizou. Chega-se mesmo a afirmar que este é provavelmente o livro mais lido do idioma inglês e o traduzido em mais línguas que qualquer outro livro, exceto a Bíblia.

Em sua autobiografia, Bunyan descreve a si mesmo como tendo conduzido uma vida abandonada em sua juventude. Atormentado, porém, com a possibilidade do pecado imperdoável, entregou-se a Cristo, tendo sido batizado por imersão no rio River Great Ouse em 1653. Pouco depois (1655) tornou-se um diácono e começou a pregar com marcante sucesso desde o início.

Embora não fosse uma pessoa estudada, conhecia a Bíblia muito bem. Sua dedicação e dons pessoais tornou-o um pregador popular e prolífico autor, apesar da maioria de seus trabalhos consistir em sermões. Em teologia, era um Puritano, mas não havia nada de obscuro a seu respeito. Era alto, tinha cabelos ruivos, um nariz proeminente, uma boca bastante grande e olhos brilhantes.

Em 1658 John Bunyan foi processado por pregar sem uma licença. Não Obstante, continuou pregando e como consequencia, foi preso em Novembro de 1660, na cadeia municipal de Silver Street, Bedford. Ali ficou detido por três meses. Por recusar-se a desistir de pregar, seu encarceramento foi estendido por um período de aproximadamente 12 anos (com exceção de algumas poucas semanas em 1666) até Janeiro de 1672, quando Carlos II emitiu a Declaração de Indulgência Religiosa. Em Março de 1675, foi novamente aprisionado por pregar, desta vez no cárcere de Bedford, localizado na ponte de pedra sobre o rio Ouse, porque Carlos II havia anulado a Declaração de Indulgência Religiosa. Após seis meses ele foi liberto e devido a sua popularidade, não mais foi molestado.

Enquanto no cárcere escreveu “O Peregrino”, uma história onde a intensa imaginação do escritor cria personagens, incidentes, e cenas vivas na mente de seus leitores como coisas conhecidas e relembradas por eles mesmos, em seus toques de ternura e humor, em sua impressionante e comovente eloqüência, e em seu puro Inglês idiomático.

O foco é a intensa luta em que neste “grande conflito cósmico” cada um de nós está envolvido, enquanto marcha para a Cidade Santa. E o tema é absolutamente relevante para a geração extremamente materialista e secularizada, da qual fazemos parte.

Bunyan surpreendeu seus contemporâneos com a imagem do crente como um viajante peregrino nesta Terra. Mas a idéia não é original do autor. Ele a toma emprestada das antigas páginas da Bíblia.

Falando de Abraão, as Escrituras afirmam: “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus.”Hebreus 11:8-10

Gosto desta figura. E ao ser confrontado com a realidade que me rodeia, concluo e reafirmo: aqui não é meu lugar.

Uma sociedade onde a verdade absoluta é propositalmente substituída por falsas “verdades” construídas para perpetuar vantagens e interesses egoístas, não pode ser meu lar.

Um mundo onde o abandono intencional e criminoso relega ao sofrimento os elementos mais vulneráveis da sociedade, não pode ser meu lugar.

Recuso-me a aceitar como meu lar um ambiente em que as lágrimas estão intermitentemente presentes. Onde o calor dos abraços de reencontro são menos frequentes que a dor das despedidas. Onde a solidão prevalece sobre a convivência e comunhão. Onde a graça é trocada pelo preço. E onde quem pode mais tem prioridade sobre quem mais precisa.

Não aceito como meu, um lugar onde as pessoas que amamos vão se perdendo pelos vãos dos dedos, levadas pela crueldade do tempo, que sádica e lentamente os roubam de nosso convívio.

Não é meu lugar um mundo onde ter é mais importante que ser, onde o parecer vale mais do que o possuir. Onde a gente deixa de ser gente para se tornar uma oportunidade, um objeto, uma fonte de lucro, um degrau de ascenção.

Não, este mundo sequestrado pelo diabo não é meu lar. Não por enquanto. Não por agora…

Aqui estou, mas só de passagem. Não gosto de futebol, nem de carnaval. Minhas prioridades não são carros nem grifes. Meu tesouro não é ouro, nem prata. Meu investimento não são aplicações ou propriedades…

Meu lugar é outro. Meus olhos estão voltados para direção oposta. É olhando, pela fé, para este outro mundo que eu sonho. Que eu vivo. Que encontro forças para dar mais um passo. E outro mais. E mais outro. Embora ás vezes me sinta trôpego e cansado.

Sinto que já é tarde. O sol está quase a se pôr no horizonte. E tenho saudades. Saudades de um lugar que nunca vi, onde nunca estive, que nem consigo descrever, exceto pela fé!

É certo que vivo aqui. Aqui tenho minha família. É aqui que trabalho, sonho, sorrio e choro. Semeio e colho. Luto e ás vezes venço, outras vezes sou derrotado…

Mas aqui não é meu lar. Sou peregrino e forasteiro. Aguardo um mundo melhor!

“Fui moço e agora sou velho”. Não sei quanto tempo falta. Mas “eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.” (2 Timóteo 1:12)

A caminho de Londres, Bunyan foi acometido por um forte resfriado, e morreu de febre na casa de um amigo em Snow Hill no dia 13 de Agosto de 1688. Seu túmulo está localizado no cemitério de Bunhill Fields em Londres.

Quanto a mim, aguardo ver meu Jesus voltando ainda com vida!  Sem experimentar a morte… Ou talvez eu morra antes, mas pensando bem, isto não faz a menor diferença “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus,Vê-lo-ei, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão”! (Jó 19:25-27)

Então, finalmente estarei em casa.  Viverei num lugar que verdadeiramente pode ser chamado de “LAR”!

 

Carlos Roberto Alvarenga

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