GRAÇA AINDA QUE TARDIA

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– Eu nunca vou me esquecer do que o seu tio me fez. . . Ou melhor, o que o seu tio não me fez. Porque ele saiu de casa pra se casar, e quando foi embora, nem ao menos obrigado me disse. Durante muitos anos eu lavei as meias e cuecas dele, e o que foi que eu ganhei? Nada! Nem ao menos um obrigado.

Este era o desabafo de minha mãe, todas as vezes que falávamos o nome do meu tio. Eu sempre lhe dizia: Mãe, a senhora tem guardado uma mágoa, um ressentimento em seu coração, desde o dia em que o tio saiu de casa para se casar. Mãe, tire essa mágoa do seu coração, entregue-a a Jesus.

Os anos se passavam, e minha mãe não conseguia esquecer o descaso, segundo ela dizia, com que meu tio a tratara, quando saiu de casa para se casar. Na verdade, com o passar dos anos, o ressentimento parecia aumentar, em vez de diminuir.

Minha mãe sempre se tratou preventivamente, com relação à saúde; tratava de sua saúde, como ao bem mais precioso que possuía. Certa vez fui acompanha-la à médica que havia lhe solicitado alguns exames.

Este foi um acontecimento que marcou a minha vida para sempre. A médica pediu uma biópsia do útero de minha mãe; Quando fui com ela buscar o resultado da biópsia solicitada, fiquei profundamente abatido, sem deixar transparecer tal tristeza para ela. Levamos o resultado do exame à médica, que confirmou: um tumor maligno, que precisaria ser retirado por meio de uma cirurgia.

Os dias que se seguiram foram de muita tristeza, mas também de muita oração. Na verdade o que eu mais desejava era que minha mãe perdoasse meu tio, por algo tão banal. Pelo menos era assim que pensava. Minha mãe passou pela cirurgia, e seu quadro clínico ia piorando a cada dia. Lembro-me das sessões de quimioterapia; quanto sofrimento! Até que chegou o dia em que ela precisou morar em minha casa, pois já não tinha condições de ficar sozinha. Meu irmão veio da cidade onde morava, para ficar com ela que já não conseguia mais andar, e meu irmão, precisava fazer, literalmente, tudo por ela, inclusive lhe dar banho e fazer sua higiene.

Certa sábado à noite, quando sua casa estava repleta de pessoas que foram visita-la, repentinamente, minha mãe levantou-se da cama de onde há semanas não conseguia sair, e disse:

– Poxa! Eu estou melhor! Porque será? Será a melhora que precede a morte? Dirigindo-se ao meu irmão mais novo lhe pediu:

– Filho, ligue para o seu tio, e peça para ele vir até aqui.

Passada cerca de uma hora, meu tio chegou, e minha mãe que ainda estava em pé, ao vê-lo, foi ao seu encontro e lhe disse as palavras que mais marcaram a minha vida, enquanto seu filho:

– Dizendo o seu nome, e abraçando-o lhe rogava: Paulo*, me perdoa, me perdoa! Ao que meu tio respondia: Claro, eu te perdoo, sim. Continuaram abraçados por alguns instantes, enquanto ela chorava, sem que meu tio lhe entendesse as palavras.

A noite chegou; foram todos embora, e minha mãe voltou a deitar para não mais se levantar; no entanto, seu semblante agora estava diferente: havia algo de paz em seus olhos já cansados. A semana que se seguiu foi lenta em sua passagem; o tempo parecia arrastar-se; Na sexta-feira à noite, ela precisou ser levada ao hospital. Todos os filhos e noras estavam presentes. Por volta das três horas da manhã, voltei para casa, para descansar um pouco, quando exatamente às 6 horas da manhã minha cunhada ligou; atendi ao telefone sobressaltado, e minha cunhada me disse:

– “Ela descansou”.

Chorei; chorei muito, ao lado me minha esposa que me confortava, e que não saia do meu lado.

Estou chorando enquanto escrevo este trecho que marcou definitivamente minha vida. Aquela que tanto me amou, agora “descansava”, mas segundo eu cria: “descansava no Senhor”. Havia algo que me confortava: Durante cerca de 30 anos, tentei fazer com que ela perdoasse meu tio; Eu nada conseguira neste sentido. No entanto, uma semana antes do seu “descanso no Senhor”, pelo poder do Espírito de Deus, ela perdoara meu tio.

Minha mãe carregou consigo uma mágoa durante tantos anos, e apenas uma semana antes de “descansar no Senhor”, ela perdoara meu tio. Não poderia haver um final mais feliz do que este! Que Deus maravilhoso o meu Deus! A graça do meu precioso Salvador, esteve com minha mãe até o último instante!

Quando alguém me diz que Graça é um atributo apenas divino, eu lhes conto a história de minha mãe. Deus já tinha lhe oferecido graça, mas queria que ela também a oferecesse ao meu tio. Graça é, basicamente, perdão; quando minha mãe conseguiu perdoar meu tio, estava lhe oferendo graça; posso imaginar que quando Deus viu este oferecimento de graça por parte de minha mãe, talvez tenha pensado:

– Ah! Assim está bom! Agora você pode descansar. Há um lugar aqui ao Meu lado, lhe aguardando!

A graça venceu! Ainda que tardia, ainda que no último instante!

(Autor Desconhecido)

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