TRAGÉDIA TRANSFORMADA EM BÊNÇÃO

 

 

fanny

Nascida em 24 de março de 1820 no município de Putnam, em Nova Iorque. Pouco depois seu pai faleceu.

Quando tinha apenas seis semanas de vida ficou cega por causa de um erro médico. Fanny tinha pouco mais de um mês de vida quando sofreu uma infecção nos olhos. O clínico geral estava fora da cidade e um outro médico fora chamado para tratar do caso. Receitou cataplasmas de mostarda quente e o efeito foi desastroso: a menina ficaria cega pelo resto da vida. O “médico” teve de fugir da cidade, tamanha a revolta suscitada entre os parentes e vizinhos do bebê.

Aos cinco anos, foi levada pela mãe para consultar o melhor especialista no país, o Dr. Valentine Mott. Uma coleta feita entre os vizinhos pagou a viagem. O pai de Fanny já havia morrido e a situação financeira da família era muito difícil.

O sacrifício, infelizmente, foi em vão, já que o médico decretou o caso como incurável. A menina teve então de acostumar-se as dificuldades, ao mesmo tempo em que demonstrava uma habilidade incomum para compor poesias.

Fanny foi evangelizada por sua avó, que passava horas lendo a Bíblia para a menina, que demonstrava ter uma memória extraordinária: decorou diversos trechos do Livro de Rute e dos Salmos.

Em 1844, escreveu seu primeiro livro de poemas – “A Menina Cega e Outros Poemas”. Uma de suas primeiras participações como compositora aconteceu em um dos cultos de Dwight L. Moody, um dos maiores pregadores da história do Evangelho, que realizava uma conferência na cidade de Northfield, no estado de Massachussetts.

Impressionado com o talento de Fanny, Moody pediu que ela contasse o testemunho pessoal de sua fé e de seu relacionamento com Deus. Assustada, Fanny a princípio relutou, mas depois leu a letra de um hino que acabara de escrever: “Eu o chamo de meu poema da alma. Às vezes, quando eu estou preocupada, eu repito isto para mim mesma, e essas palavras trazem conforto ao meu coração, disse ela, antes de recitá-lo.”

O hino, é verdade, não é citado em sua biografia, mas isso, de fato, pouco importa, já que poderia ser qualquer um daquelas centenas de cânticos que embalaram o avivamento americano no século XIX, período que ficou conhecido como O Grande Despertamento. Naquela ocasião, os momentos de apelo à conversão eram freqüentemente inspirados por palavras como as do hino Mais perto da Tua Cruz, composto por Fanny Crosby, em 1868:

“Meu Senhor sou Teu
Tua voz ouvi, a chamar-me com amor […]
mais perto da Tua cruz leva-me, ó Senhor.  “

Tornou-se uma das mais produtivas letristas de hinos evangélicos norte-americanos.

“Oh, que alma contente eu sou,
Apesar de não poder ver!
Pois decidida estou
Que neste mundo alegre serei.”

Francis Jane Crosby escreveu mais de 9 mil hinos, que estão entre os mais populares em todas as denominações cristãs. Escreveu tantas letras que foi forçada a usar pseudônimos, pois receavam que seu nome estivesse em todos os hinos e se sobressaísse aos demais autores. Para a maioria das pessoas, o traço mais marcante de Fanny Crosby sempre foi o que ela fez, apesar de sua cegueira.

“É uma pena que o Mestre não lhe tenha dado também a visão, uma vez que lhe concedeu tantos dons”, comentou certa vez um pregador. Fanny respondeu como sempre fazia ao ouvir esse tipo de comentário: “Se ao nascer eu pudesse ter feito um único pedido a Deus, teria sido para que eu tivesse nascido cega”, disse a poetisa, que perdera a visão com apenas seis semanas de vida. “Para que quando eu chegasse ao céu, a alegria da minha primeira visão fosse enxergar o rosto do meu Salvador”.

Seu amor pela poesia começou logo cedo – seus primeiros versos foram escritos quando tinha apenas 8 anos, e ecoaram durante sua vida como uma recusa pessoal de sentir pena de si mesma:

“Oh, que alma contente eu sou,
Apesar de não poder ver!
Pois decidida estou
Que neste mundo alegre serei!
Tantas bênçãos tenho recebido
Outros podem chorar e soluçar porque sou cega
Porque isso eu não farei!”

Enquanto se alegrava escrevendo suas poesias, ela, zelosamente, também memorizava a Bíblia. Fanny costumava decorar cinco capítulos por semana, e, mesmo sendo ainda criança era capaz de recitar o Pentateuco, os Evangelhos, os Provérbios, os Cantares de Salomão, além de vários salmos – incluindo capítulos e versos específicos.

O trabalho duro de sua mãe valera o esforço. Pouco antes de completar 15 anos, Crosby foi mandada para o recém-fundado Instituto para Cegos, em Nova York. O Instituto foi seu lar durante 23 anos: 12 como aluna e 11 como professora. Inicialmente, Fanny dedicou-se à sua própria poesia e foi convidada a participar de concursos de poesia em várias ocasiões. Nessa época, o diretor do Instituto pediu-lhe que se afastasse dessas “distrações” e se dedicasse à instrução geral. “Não temos o direito de nos portarmos de maneira fútil na presença do Criador de todas as coisas”, foi o que ele lhe disse.

Mas foi o trabalho de um frenologista itinerante (estudioso da forma e das irregularidades dos ossos do crânio para a compreensão do caráter e da capacidade mental) que mudou a mentalidade da escola e avivou sua paixão pela poesia. Embora hoje este tipo de estudo seja considerado ridículo pela ciência, as palavras do frenologista foram proféticas: “Eis aqui uma poetisa. Dêem a ela todo o encorajamento possível. Leiam os melhores livros para ela, e lhe ensinem a sutileza que existe na poesia. Façam isso, e um dia vocês ainda ouvirão falar muito desta jovem”.

Poetisa dos presidentes – E a previsão não demorou muito a se concretizar. Aos 23 anos, Crosby discursava no Congresso americano e tornou-se amiga de vários presidentes. Na verdade, ela conheceu todos os chefes de Estado de seu tempo, especialmente Grover Cleveland, para quem trabalhou como secretária no Instituto para Cegos antes que ele fosse eleito presidente.

Alexander van Alstin, ex-aluno e membro do Instituto, casou-se com Crosby em 1858. Considerado um dos melhores organistas de Nova York, ele compôs a melodia de muitos hinos de Fanny. Embora tocasse vários instrumentos: harpa, piano, violão, entre outros, a própria Fanny compôs a música de pouquíssimos dos seus hinos. Freqüentemente, compositores procuravam Crosby em busca de letras para suas melodias.

Certa vez, o músico William Doane apareceu de surpresa em sua casa para uma visita, implorando-lhe que colocasse letra em uma música que ele havia composto recentemente, a qual deveria apresentar na próxima Convenção das Escolas Dominicais. O único problema era que o trem que Doane deveria tomar para chegar à convenção sairia em 35 minutos. Ele sentou-se ao piano e tocou a melodia.

“Bem, ‘Salvo por Jesus Cristo’, é o que sua música diz”. Com estas palavras, Crosby começou a fazer a letra apressadamente. “Corra e termine de ler isto no trem”, ela disse. “Você não pode se atrasar!”. Este se tornou um dos hinos mais famosos de Fanny Crosby.

Embora tivesse um contrato para compor três hinos por semana para sua editora, ela geralmente escrevia seis ou sete por dia (por 1 ou 2 dólares cada); e muitos desses hinos tornaram-se extremamente populares. Quando Dwight Moody e Ira Sankey começaram a cantá-los em suas cruzadas, os hinos passaram a receber mais atenção. Entre os mais conhecidos estão: Segurança, Jesus como Guia, Exultação, Desejo da Alma, Salvo, Ide e Ao pé da Cruz *.

Fanny Crosby tinha capacidade para compor hinos complexos e músicas com estruturas mais clássicas (era capaz até mesmo de improvisar), mas sempre preferiu escrever versos simples e sentimentais que pudessem ser usados para evangelizar. E continuou a escrever poesias até o final de sua vida: ela faleceu um mês antes de completar 95 anos. Este foi o seu último verso: “Em um doce e maravilhoso dia direi adeus e alcançarei o outro lado do rio”.

* Todos os títulos, fragmentos de letras e referências aos hinos basearam-se no Cantor Cristão.

(Fonte: Revista Cristianismo Hoje – http://cristianismohoje.com.br/)

 

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